Produção de combustível sustentável de aviação é irrisória

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A Associação do Transporte Aéreo Internacional (IATA) divulgou estimativas mostrando que a produção global de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) deve atingir cerca de 2,4 milhões de toneladas…

A Associação do Transporte Aéreo Internacional (IATA) divulgou estimativas mostrando que a produção global de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) deve atingir cerca de 2,4 milhões de toneladas em 2026. O volume representa apenas 0,8% do consumo total de combustível da aviação, a um custo de 4,3 bilhões de dólares para as companhias aéreas. A IATA representa mais de 370 companhias aéreas, responsáveis por cerca de 85% do tráfego aéreo global.

A expectativa é a de que será mais um ano decepcionante para a produção de SAF, segundo Willie Walsh, Diretor-Geral da IATA. Cinco anos após o compromisso de atingir a neutralidade de carbono (net zero) até 2050, a produção de SAF responderá por apenas 0,8% do combustível utilizado pelas companhias aéreas este ano. Devido a políticas governamentais com sequenciamento ineficaz e a falta de interesse de empresas de petróleo, torna-se cada vez mais difícil o caminho para suprir 65% das necessidades em 2050 com SAF.

“O atual choque energético deveria trazer ainda mais urgência ao desenvolvimento de fontes renováveis, incluindo o SAF. No entanto, ainda não vimos este choque energético, a necessidade de desenvolver independência energética e empregos, ou a urgência de mitigar as mudanças climáticas se traduzirem nos incentivos necessários para criar um mercado de SAF viável.”
Willie Walsh, Diretor-Geral da IATA

Para acelerar a escala de produção do SAF, a IATA defende uma ação coordenada em quatro prioridades:

  • Expandir a oferta de energia renovável para sustentar a produção de SAF e garantir a disponibilidade de matérias-primas e energia limpa suficientes.
  • Garantir o acesso aberto à infraestrutura de combustível, incluindo dutos, instalações de armazenamento e sistemas de abastecimento dos aeroportos, para permitir uma concorrência justa e uma distribuição eficiente.
  • Fortalecer o apoio político por meio do sequenciamento eficaz de incentivos à produção e de marcos de investimento que proporcionem certeza e reduzam riscos antes da imposição de qualquer mandato de uso.
  • Viabilizar um mercado global de SAF com volumes suficientes e preços comercialmente viáveis, o que é crítico para a sustentabilidade financeira e econômica das companhias aéreas.

Um sistema de book-and-claim é essencial para transformar o mercado de SAF de local para global, tornando-o acessível às companhias aéreas e produtores de SAF independentemente de seus domicílios. O mercado global de SAF também deve ser respaldado por padrões harmonizados que criem regras duradouras e concorrência justa.

Eletricidade renovável para produzir e-SAF

Além do SAF, proveniente de fontes de biocombustível, há o e-SAF (ou eletro-SAF) combustível sintético que também desempenhará um papel crescente na descarbonização do transporte aéreo. A conversão de eletricidade renovável por meio do processo power-to-liquid (PtL) pode produzir o e-SAF, que não requer biomassa ou resíduos de óleos, mas exige grandes volumes de eletricidade renovável, hidrogênio verde, água e CO₂.

A União Europeia (UE) e o Reino Unido estabeleceram mandatos para uma produção de e-SAF de cerca de 0,6 milhão de toneladas até 2030. No entanto, a capacidade de produção global atualmente em operação e em construção gira em torno de apenas 0,02 milhão de toneladas, com uma única planta de produção em atividade. Seriam necessárias aproximadamente 20 refinarias em escala comercial para atingir o volume obrigatório. Além disso, nenhuma nova Decisão Final de Investimento (FID) para instalações de e-SAF foi tomada no último ano.

Para Marie Owens Thomsen, Vice-Presidente Sênior de Sustentabilidade e Economista-Chefe da IATA, as metas de e-SAF para 2030 estipuladas pelo Reino Unido e pela UE estão além do irrealista – elas estão totalmente descoladas da realidade. “É uma estratégia temerária de criação de mercado de energia impor mandatos antes que a produção seja viabilizada. Tal estratégia servirá apenas para inflacionar os preços”, afirma. Somada à aplicação de penalidades, desvia recursos escassos que deveriam ser alocados na redução real das emissões de CO₂.

“Essa estratégia é também intrigante, dado que a Europa possui os preços de energia renovável mais altos do mundo. Uma estratégia séria deveria, primeiramente, expandir a produção de energia renovável para reduzir seu preço e construir a capacidade de produção de e-SAF sobre bases econômicas sólidas. Somente a partir desse ponto os mandatos poderiam alcançar os resultados desejados.”
Marie Owens Thomsen, Vice-Presidente Sênior de Sustentabilidade e Economista-Chefe da IATA
 

Apoio dos passageiros à descarbonização

Recente pesquisa com passageiros realizada pela IATA (abril de 2026) mostra um apoio forte e consistente à descarbonização do transporte aéreo. Para 89% dos passageiros, o setor deve continuar reduzindo as emissões mesmo se os governos recuarem em seus esforços, enquanto uma parcela semelhante vê o ato de voar como algo essencial e que deve se tornar sustentável, em vez de ter seu uso restringido.

Esse apoio é respaldado por uma disposição para agir: cerca de dois terços dos passageiros (66%) afirmam estar dispostos a pagar mais para compensar as emissões, e quase 88% esperam que os preços das passagens subam como resultado dos investimentos em sustentabilidade.

Os passageiros também favorecem claramente soluções de descarbonização “reais”, com 25% priorizando a aplicação de recursos no SAF e 23% em tecnologias de redução de emissões, ficando muito à frente da opção por impostos (10%). De maneira significativa, a sustentabilidade já influencia o comportamento de consumo: quase metade dos viajantes (48%) analisa as emissões de carbono ao escolher seus voos. Entre aqueles que realizam essa verificação, mais de 85% afirmam que isso afeta sua decisão, enquanto cerca de três quartos declaram preferir companhias aéreas com melhor desempenho ambiental.

No balanço geral, os dados trazem uma mensagem clara: os passageiros esperam que o transporte aéreo avance na descarbonização, apoiam amplamente a transição e inserem cada vez mais a sustentabilidade em suas escolhas, ainda que o custo e a conveniência continuem sendo fatores importantes.


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