Desmatamento por atividade ilegal teve pico em 2022 com aproximadamente 1.800 hectares desmatados, enquanto em 2025 foram detectados novos 45,2 hectares de desmatamento
O desmatamento causado pelo garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami vem apresentando uma expressiva redução nos últimos três anos, após registrar forte expansão em 2021 e 2022, segundo o novo relatório do Instituto Socioambiental (ISA). O mapeamento sugere, entretanto, que a prática criminosa foi alterada devido ao aumento de fiscalização e persiste de maneira mais descentralizada, deslocando-se para zonas mais próximas da fronteira com a Venezuela.
Segundo o documento, a desaceleração acentuada teve início em 2023, quando o Governo Federal interviu e instaurou Emergência de Saúde Pública no território. A Terra Indígena Yanomami acumula um total histórico de 5.564 hectares de área degradada pelo garimpo. Em 2025, foram registrados 45,2 novos hectares desmatados pela mineração ilegal, o que representa uma queda para quase a metade dos 84 hectares mapeados no ano anterior.

O relatório do Instituto Socioambiental foi lançado em parceria com o programa MAAP (Monitoring of the Andes Amazon Program, da Amazon Conservation Association), em cooperação com a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e a Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume).
Ações de governos têm impacto
O diretor do programa MAAP na Amazon Conservation, Matt Finer, afirma que os dados demostram que os governos têm capacidade de reduzir o garimpo ilegal quando há intervenções coordenadas e esforços efetivos de fiscalização. O monitoramento é realizado mensalmente a partir da interpretação visual de imagens de satélites por especialistas em geoprocessamento. A partir destas imagens, são desenhados os polígonos de degradação e todos os meses, as regiões impactadas são revisitadas para refinar o mapeamento e checar possíveis equívocos.
“Na Terra Indígena Yanomami, o garimpo ilegal atingiu seu pico entre 2021 e 2022, mas caiu significativamente após a grande intervenção do governo brasileiro, iniciada em 2023. No entanto, como observamos recentemente no Peru e na Venezuela, essas ações precisam fazer parte de um esforço contínuo e de longo prazo. Caso contrário, o garimpo ilegal tende a retornar rapidamente.”
Matt Finer, diretor do programa MAAP
Apesar do recuo, especialistas alertam para a necessidade de cautela, já que a abertura de novas áreas prova que a atividade ilegal não foi totalmente neutralizada. O monitoramento indica que os invasores alteraram sua forma de atuar em resposta ao aumento da fiscalização e agora eles evitam áreas antes exploradas à exaustão e que foram neutralizadas pelas forças governamentais, como Alto Catrimani, Médio Uraricoera e Homoxi.

Perímetros de um hectare ou menos
Em 2025, o mapeamento identificou 121 polígonos de novas áreas afetadas, sendo que 90% deles possuem um hectare ou menos. Os dois maiores perímetros detectados possuem cerca de quatro hectares cada e situam-se nas regiões de Parima e Surucucus, próximos à pista do Feijão Queimado, em Roraima.
Para driblar o cerco das autoridades, os garimpeiros têm se dispersado em direção à fronteira com a Venezuela. Cicatrizes desse avanço foram detectadas nas localidades de Parafuri-Parima, Hokomawë e Cabeceira do Aracaçá. O relatório aponta que a região do Ericó, acessível pelo Rio Uraricaá, passou a registrar sinais inéditos de desmatamento em terra firme, mudando a dinâmica anterior que se restringia à atuação de dragas no leito do rio.
Com o valor do ouro atingindo patamares históricos no mercado internacional, a pressão sobre o território é constante., segundo o geógrafo do ISA, Estêvão Senra.
“Operações de desintrusão são o primeiro passo indispensável, mas sozinhas elas não resolvem o problema estrutural. Sem estratégias de proteção territorial de médio e longo prazo, que envolvam vigilância permanente e melhorias na regulação da cadeia do ouro, há um grande risco de observarmos uma nova onda de invasão num futuro próximo.”
Estêvão Senra, geógrafo do ISA
Novas táticas
A persistência logística dos invasores é confirmada por dados obtidos no Sistema de Alertas da Terra Indígena Yanomami. Em 2025, a ferramenta registrou pelo menos cinco alertas de movimentação de aeronaves clandestinas na região de Auaris e um total de 66 alertas territoriais. Desse montante, 83% correspondiam a invasões envolvendo o tráfego de aeronaves clandestinas, barcos e balsas, além de ocorrências graves como ataques e entrada de armas de fogo.
Por via fluvial, as denúncias apontam a continuidade de tráfego de embarcações suspeitas, operação de dragas e escoamento de cassiterita nos rios Uraricoera, Catrimani, Apiaú e Ajarani. O Baixo Catrimani foi a área com maior volume de relatos fluviais: entre abril e dezembro de 2025, as comunidades Yanomami enviaram nove alertas detalhando a presença de balsas e dragas na região.
O sistema de alertas foi idealizado em 2023 pelas próprias organizações locais (Hutukara, Wanasseduume Ye’kwana, Urihi, Parawamë, Kurikama, AYRCA e Kumirayoma), contando com suporte técnico do ISA e apoio do Unicef. A ferramenta funciona por meio de um formulário que permite a monitores comunitários o envio de fotos, vídeos, áudios e dados de geolocalização mesmo de forma offline. Após a validação e tradução por pesquisadores indígenas, as informações são consolidadas em um painel público e encaminhadas formalmente às autoridades nos idiomas Yanomami, Ye’kwana, Sanoma e português.
Foto capa: Lucas Silva/Platô/ISA
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