Crise hídrica pode ser evitada com gestão 360º

Lorena Zapata é especialista em sustentabilidade industrial, diretora de novos negócios e sustentabilidade na Engeper Ambiental e Perfurações, com vasta experiencia em implantação da tecnologia de eletrodiálise reversa (EDR) como transição ecológica para indústrias.

O Brasil caminha para uma crise de segurança hídrica evitável, tratando o recurso mais vital para o desenvolvimento como se fosse infinito. A visão reativa e fragmentada do ciclo da água, que só age quando o reservatório entra em colapso ou a estação de tratamento falha, não é apenas ineficiente, mas uma sentença de estagnação econômica e social. Não se discute mais se as mudanças climáticas são reais, e sim o fato de que o país, detentor de vasta riqueza hídrica, opta por ignorar os sinais e adiar investimentos em gestão 360°, comprometendo a competitividade das indústrias e a estabilidade do abastecimento público. Trata-se de um erro estratégico cujo custo será alto, mensurável em PIB e qualidade de vida.

Essa fragilidade estrutural do país reside na aceitação de perdas e na dependência de fontes únicas. A perda média de 37,78% na distribuição de água potável em 2022, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), não é apenas um número, é um reflexo de má-governança: um volume desperdiçado que custa bilhões e exige um esforço contínuo para captação, energia e tratamento de água que nunca chega ao consumidor.

A ineficiência é uma taxação oculta sobre toda a sociedade. No agronegócio, setor responsável por cerca de 72% do consumo de água no país, de acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a falta de tecnologias de irrigação inteligente e o uso ineficiente da água tornam o setor, motor da economia, refém da precipitação errática. É inaceitável que o celeiro do mundo não lidere a revolução da água na agricultura.

Solução passa pela Gestão Hídrica 360º

A única rota de sobrevivência e prosperidade passa pela Gestão Hídrica 360°, um modelo que deve ser imposto como prioridade nacional. A solução não é complexa, porém exige vontade política e investimento inteligente. A implementação do reúso de efluentes tratados para fins não potáveis deve deixar de ser uma iniciativa isolada para se tornar uma política industrial mandatória, principalmente em setores de alto consumo.

Empresas que adotam sistemas avançados de tratamento e recirculação já demonstram que a água pode ser um recurso quase totalmente renovável in loco, aliviando a pressão sobre os mananciais. Para as regiões costeiras e áreas de escassez crítica, o Brasil precisa acelerar a adoção de tecnologias de dessalinização, que, apesar do custo inicial, garantem uma autonomia crucial diante da seca, exigindo um investimento em pesquisa e desenvolvimento para viabilizar a tecnologia economicamente em larga escala.

Simultaneamente, a dependência de dados históricos deve ser substituída pela telemetria e monitoramento em tempo real. A utilização de sensores, inteligência artificial e big data para mapear vazamentos, prever falhas de bombeamento e otimizar o uso da água nas indústrias e sistemas de saneamento deve ser a espinha dorsal da resiliência operacional. Mover a gestão de um modelo reativo para um preditivo minimiza custos de emergência e maximiza a disponibilidade do recurso.

Verdadeiro custo está em perder safras

A objeção sobre o custo de implementação dessas soluções é o argumento mais fraco e perigoso. O verdadeiro custo está em perder safras, paralisar indústrias e racionar água nas cidades, cenários que se tornam recorrentes com a inação. Organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), são categóricos ao afirmar que investir em infraestrutura hídrica resiliente é um dos melhores catalisadores de crescimento de longo prazo. Empresas que falham em gerir a água de forma eficiente veem seu risco ESG (Ambiental, Social e Governança) elevado, o que afasta investidores e encarece o capital.

É hora de reconhecer que a água é o novo petróleo do século XXI: um recurso estratégico que ditará a geopolítica e a economia global. O Brasil, detentor de 12% da água doce superficial do planeta, está falhando em proteger e gerir essa riqueza sem a devida seriedade. A nação precisa urgentemente abandonar a complacência e impor a si mesma um salto de gestão. A segurança hídrica deve ser elevada ao patamar de segurança nacional, com metas claras, prazos definidos e investimentos prioritários. Só assim o país garantirá não apenas o abastecimento das próximas gerações, mas a própria viabilidade de seu projeto de desenvolvimento em um clima que não mais perdoa a ineficiência.

O conteúdo é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do ViaVerde News.

Leia mais em ViaVerde News