Futuro das cidades: não agir já é uma decisão financeira e moral

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EXCLUSIVO: Ana Cândida Pena, jornalista e cientista social entrevista a urbanista Carol Guimarães As cidades são o objeto do trabalho e a paixão pessoal da urbanista e cientista…

EXCLUSIVO: Ana Cândida Pena, jornalista e cientista social entrevista a urbanista Carol Guimarães

As cidades são o objeto do trabalho e a paixão pessoal da urbanista e cientista social Carol Guimarães. Em um país onde cerca de 70% da população já vive em áreas urbanas, esses territórios têm se tornado cenário de disputas crescentes por acesso, infraestrutura e direitos. Na entrevista a seguir, exploramos sua visão sobre a complexidade do cenário brasileiro e como temos reagido na direção de novas soluções urbanas.

Hoje à frente do UK PACT, programa financiado pelo Fundo Internacional para o Clima do Reino Unido, que desde 2018 atua com financiamento de projetos climáticos pelo mundo, Carol Guimarães tem operado na ponta do desafio de aproximar investimento e realidade. Sua trajetória passa por Alemanha, Canadá e Brasil, onde o planejamento e a preparação dos territórios urbanos são especialmente importante como ferramenta de intervenção na realidade.

Carol mediou a abertura do encontro Festival Cidade do Futuro, realizado na Praça Victor Civita em São Paulo, no final de abril, que serviu de palco para o debate e a troca de experiências entre atores do setor público, privado e organizações da sociedade civil interessadas nos desafios urbanos. Longe de projeções futuristas genéricas, o debate focou no “nó” da execução. Afinal, por que as soluções que já existem ainda não ganharam escala?

jornalista e cientista social Ana Cândida Pena estreia na coluna Cidades Verdes com essa conversa exclusiva com Carol Guimarães, que traz sua perspectiva sobre o desafio de transformar todo o conhecimento adquirido em planejamento urbano em realidade nos territórios.

O conceito de “territórios complexos” perpassou algumas falas na mesa de abertura mas, na prática, o que diferencia esses territórios e por que é justamente nesses lugares que as soluções mais falham em sair do papel?

Carol: Territórios são, na prática, onde os direitos das pessoas se materializam. Então eles são naturalmente complexos, ou deveriam ser entendidos assim porque concentram mobilidade, infraestrutura, acesso a serviços, oportunidades. Mas como conceito, quando falamos de territórios complexos, muitas vezes estamos falando das áreas mais vulnerabilizadas, nas bordas das cidades, que receberam menos investimento ao longo do tempo. São territórios com múltiplas necessidades: transporte, infraestrutura básica, serviços públicos de qualidade. E aí está o desafio. Se já é difícil imaginar o futuro em áreas mais estruturadas, nesses contextos a dificuldade é muito maior. Porque você precisa de mais coordenação, mais capacidade de articulação e, principalmente, mais liderança política e visão de longo prazo.

Podemos dizer que a gente já sabe bastante sobre o que funciona no planejamento urbano, temos muitos estudos e boas práticas pelo mundo. O que ainda impede essas soluções de chegarem ao território?

Carol: A gente já tem bastante conhecimento acumulado sobre o que é bom planejamento. A ciência urbana avançou muito nisso. O desafio de transformar esse conhecimento em realidade nos territórios, hoje passa por diferentes dimensões. Tem o papel dos dados e da ciência, que ajudam a orientar decisões. Tem o papel do financiamento, especialmente de bancos multilaterais, que trazem recursos, mas também exigem capacidade de execução e monitoramento. E tem a questão da coordenação entre atores. No fim, implementar significa alinhar interesses diferentes em torno de um mesmo objetivo: setor público, privado e sociedade civil.

E como viabilizar isso na prática, especialmente quando os recursos são escassos?

Carol: Existe um paradoxo aí. Muitas vezes, os territórios que mais precisam de investimento são justamente aqueles que têm mais dificuldade de acessar recursos. Ao mesmo tempo, quando você consegue estruturar um financiamento a partir de um banco de desenvolvimento, por exemplo, isso vem acompanhado de processos mais robustos de acompanhamento e governança, o que pode fortalecer a implementação.

Outro ponto importante é pensar em instrumentos de longo prazo, como concessões, especialmente em áreas como transporte. Esses contratos colocam um agente atuando no território por muitos anos, às vezes mais do que os próprios ciclos de governo. Isso cria uma oportunidade de alinhar incentivos e garantir continuidade. Se hoje o imediatismo é um dos principais desafios para avançar com as gestões políticas, que trabalham em um ciclo de quatro anos, outros atores que atuam no território podem se tornar parceiros importantes da mudança.

Pensando na importância de construir esses novos pactos urbanos, o que faz diferentes atores “comprarem” uma agenda comum?

Carol: No fim das contas, todo mundo ganha quando a cidade funciona melhor. O desafio é mostrar isso de forma clara para cada ator. Há um consenso sobre o fato de que cidades que são boas para crianças e idosos, por exemplo, ou seja, seguras, acessíveis e dinâmicas, são melhores para todos nós. E aí entram os dados e a evidência. É através da ciência que a gente consegue demonstrar por que uma determinada agenda faz sentido, seja do ponto de vista econômico, social ou ambiental. Cada ator tem seus próprios incentivos, então o trabalho é traduzir o benefício coletivo em ganhos concretos para cada um deles.

Quando se fala em crise climática, ainda existe a percepção de um conflito entre custo econômico e custo ambiental. Esse dilema é real?

Carol: Hoje, não agir já é uma decisão financeira e moral. A ação te obriga a reconhecer o problema e responder a ele. A inércia, por outro lado, também é uma escolha, mas uma escolha que tende a gerar perdas muito maiores no futuro. Do ponto de vista econômico, já sabemos que é mais barato investir em prevenção e adaptação do que arcar com perdas e danos depois de um choque climático, como secas ou ondas de calor. E isso sem contar custos que muitas vezes nem entram na conta, como os impactos sociais e, principalmente, as vidas humanas afetadas, e quais são estas vidas.

Então a adaptação climática já deveria ser tratada como prioridade econômica?

Carol: Sem dúvida. Quanto mais cedo você identifica o problema e age, menor o custo. À medida que você adia, os riscos se acumulam e as perdas se multiplicam. Já existem pesquisas que mostram isso de forma consistente. Um estudo recente do World Resources Institute (WRI), que analisou mais de 300 projetos em diferentes países, mostra que cada US$ 1 investido em adaptação e resiliência pode gerar mais de US$ 10 em benefícios ao longo do tempo. E esses retornos não são só perdas evitadas — incluem ganhos econômicos, melhoria de serviços e impactos sociais positivos. O que acontece, muitas vezes, é que esses benefícios ainda são subestimados nas análises tradicionais, o que atrasa decisões de investimento.

Diante desse cenário, o que precisa mudar para que as soluções que já existem finalmente ganhem escala nas cidades brasileiras?

Carol: A gente precisa avançar em três frentes ao mesmo tempo: capacidade técnica, coordenação entre atores e construção de visão de longo prazo. Mas, acima de tudo, é uma questão de decisão. As soluções existem, os dados estão disponíveis e os impactos já são conhecidos. O desafio agora é transformar esse conhecimento em ação coordenada, especialmente nos territórios que mais precisam.

O debate sobre cidade do futuro muitas vezes traz soluções tecnológicas sofisticadas. Mas você trouxe uma provocação sobre simplicidade e coletivo. O que quis dizer com isso?

Carol: Existe uma tendência de associar “futuro” a algo muito tecnológico ou complexo, mas, quando a gente olha para práticas sustentáveis, muitas vezes elas já existem há muito tempo. Territórios indígenas, por exemplo, operam com uma lógica de uso do espaço e dos recursos que é profundamente sustentável e coletiva. Quando a gente fala em cidades mais sustentáveis, em alguma medida estamos tentando chegar a algo que já é praticado nesses contextos. Isso também nos convida a questionar o próprio conceito de modernidade. Talvez o que a gente esteja buscando não seja algo mais complexo, mas, na verdade, algo mais simples, mais integrado e mais coletivo.

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