Comprar um celular recondicionado, trocar o shopping pelo brechó ou investir em móveis e eletrodomésticos seminovos já não é apenas uma forma de economizar. Em meio ao avanço das mudanças climáticas e à pressão sobre recursos naturais, o consumo de itens de segunda mão passa a ser visto também como uma escolha ambiental.
Em termos de impacto prático, a plataforma Kwara, especializada na recomercialização de ativos, estima que o volume de itens revendidos por ela entre 2025 e 2026 contribuiu para evitar a emissão de aproximadamente 7,5 milhões de kg de CO₂ equivalente e reduziu cerca de 1.350 toneladas de resíduos eletrônicos que seriam descartados prematuramente. “Em outras palavras, este é o impacto de retirar da rua 1.600 carros a combustão por um ano”, destaca Thiago da Mata, CEO da plataforma, que registrou um aumento estimado de 105% na procura por esses itens no período, liderado pela categoria de móveis.
O tema ganha ainda mais relevância no Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho. Em 2026, a campanha global da ONU coloca as mudanças climáticas no centro do debate e reforça a urgência de repensar os padrões de produção e consumo diante de ondas de calor e eventos extremos cada vez mais comuns. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a extração e o processamento de recursos naturais para a fabricação de produtos respondem por mais da metade das emissões globais de gases de efeito estufa e por mais de 90% da perda de biodiversidade e do estresse hídrico no planeta.
Nesse contexto, o consumo circular baseado na reutilização ganha espaço. A lógica é direta: quanto mais tempo um produto permanece em uso, menor a necessidade de extrair matérias-primas e produzir novos itens.
Segunda mão deixa de ser nicho e se consolida como tendência global
A mudança já aparece no comportamento do consumidor. O mercado global de roupas de segunda mão, por exemplo, deve alcançar US$ 367 bilhões até 2029, segundo relatório da ThredUp com a GlobalData. Esse comportamento já se estende para eletrônicos, móveis e automóveis, atraindo marketplaces e grandes varejistas para operações de recompra e logística reversa.
“Existe uma mudança cultural importante em curso. O consumidor percebeu que sustentabilidade e consumo inteligente podem caminhar juntos. Produtos seminovos deixaram de ser vistos como segunda opção e passaram a representar acesso a itens de qualidade com menor impacto ambiental e melhor custo-benefício”.
Thiago da Mata.
Do varejo ao leilão: produtos ganham nova vida no circuito circular
Parte desse movimento vem de itens que retornam ao varejo após trocas, devoluções ou pequenas avarias estéticas, como geladeiras com riscos ou notebooks fora da embalagem original, que seguem plenamente funcionais.
Outro segmento em expansão é o de desativação de hotéis e apartamentos decorados. Móveis e itens de decoração de alto padrão, muitas vezes em excelente estado, são revendidos por valores significativamente menores do que no varejo tradicional, evitando o descarte ou o armazenamento sem uso.
O impacto ambiental do descarte precoce
Além da economia, o reaproveitamento combate o descarte precoce, sendo especialmente relevante para os eletrônicos. Resultados de um estudo da Fraunhofer Institute indicam que o recondicionamento de eletrônicos pode reduzir entre 18% e 37% das emissões de gases de efeito estufa. No caso dos smartphones, a economia chega a 37%, o equivalente a 34,7 kg de CO₂ por unidade. O dado acende um alerta, já que a ONU aponta que a geração global de lixo eletrônico aumenta 2,6 milhões de toneladas por ano e deve atingir 82 milhões de toneladas até 2030.
“Em setores como eletrônicos, o impacto ambiental não está só no descarte, mas em toda a cadeia. Quando você estende o ciclo de vida de um produto, adia a necessidade de nova extração de recursos e reduz a pressão sobre uma cadeia altamente intensiva em energia e matéria-prima”.
Mata.
O item seminovo passa, assim, a ser visto como uma alternativa racional que muda o conceito de “novo” e valoriza a durabilidade.
Como comprar itens usados com segurança
Especialistas recomendam alguns cuidados antes de comprar produtos usados ou vindos de logística reversa. Verificar a procedência, pesquisar a reputação da plataforma e conferir as garantias disponíveis estão entre os principais pontos de atenção.
“Em itens de maior valor, como eletrônicos e eletrodomésticos, também é importante observar descrições detalhadas sobre o estado do produto. E, caso a compra seja feita online, pesquise bem em recursos como o Reclame Aqui e sempre opte por plataformas e sites confiáveis’.
CEO da Kwara.
Enquanto governos e empresas discutem metas globais, hábitos cotidianos simples começam a consolidar-se como parte dessa grande transformação ambiental.
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