Tingimento natural é o futuro da moda?

Maria Clara S.R. é designer e colunista de moda sustentável. Desenvolveu e apresentou coleção sobre moda sustentável, com foco em tingimento natural.

O setor do vestuário está entre os mais poluentes do mundo, responsável por cerca de 2% a 8% das emissões globais de carbono, enquanto o tingimento têxtil figura entre os maiores poluidores das fontes de água, segundo a Organização das Nações Unidas.

Uma alternativa mais responsável e sustentável consiste na técnica ancestral de extração de pigmentos de fontes naturais — como plantas, flores, frutos, raízes, sementes, cascas, minerais e até insetos — para colorir tecidos e outros materiais. Há atualmente diversas iniciativas nessa direção no Brasil.

Marcas brasileiras como Flávia Aranha, criada em 2009, traz a referência de uma moda sustentável com seus pilares em técnicas de tingimento natural desde sua origem, utilizando processos de coloração natural de origem renovável, como cascas de árvore, frutos, folhas e raízes pensando na biodiversidade brasileira e utilizando preferencialmente espécies nativas.

Outra marca que se destaca é a carioca Zsolt, que participa do movimento slow fashion, praticando uma moda consciente, baseado no respeito ao tempo de confecção. Sua estamparia é artesanal, cada peça é tingida e são secas ao sol, naturalmente e sem consumo de energia elétrica.

O tema também tem se aprofundado nos artigos acadêmicos nos últimos anos como a monografia de Patrícia Bessa e Cristine Soffner, 2024, estudando e aprofundando na ancestralidade do tingimento, Tingimento natural e suas técnicas ancestrais: a integração de saberes.

O que é tingimento natural

A prática do tingimento natural configura-se como alternativa aos corantes e fixadores químicos ao utilizar insumos naturais e processos caseiros, realizados com a extração de pigmentos e criação de mordentes (soluções que alteram a coloração) a partir do uso de materiais enferrujados.

Ancestralidade

Evidências arqueológicas indicam que civilizações da Índia e da China já utilizavam técnicas de tingimento por volta de 2.500 a.C., com o uso de pigmentos como o índigo e o extrato de casca de romã, segundo Patrícia e Cris, autoras da monografia Tingimento natural e suas técnicas ancestrais: integração de saberes, (Graduação Moda Anhembi Morumbi, 2024).

No contexto sul-americano, há registros de práticas semelhantes no Peru em 2.000 a.C., e no Egito, em aproximadamente 3.500 a.C., onde o linho era tingido com pigmentos vegetais. No Brasil, esse conhecimento tradicional se mantém vivo nas práticas dos povos indígenas e das comunidades quilombolas. Etnias como os Kayapó, Guarani e Ticuna fazem uso de corantes como urucum, jenipapo e argilas para pintura corporal e rituais, revelando cosmologias próprias e um profundo vínculo espiritual com a terra.

Sustentabilidade também nos tecidos

Quando se trabalha com o tingimento natural é importante a escolha dos materiais privilegiando fibras
vegetais que melhor absorvem corantes naturais, para englobar a sustentabilidade em sua totalidade e minimizar impactos ambientais. Recomenda-se realizar uma busca por tecidos com processos de rastreabilidade por DNA e certificações como o BCI (Better Cotton Iniciative).

É relevante observar que 10% das emissões de gases de efeito estufa vêm de alimentos desperdiçados (PNUMA, 2022). Por isso, para o processo de tingimento ser mais sustentável, o melhor caminho é aproveitar resíduos orgânicos como semente de abacate, casca de cebola e borra de café. No caso de pigmentos extraídos de partes sem ser designadas para o descarte, como hibisco e carvão vegetal, a orientação é adotar um processo de secagem e reaproveitamento priorizando versões já impróprias para consumo.

O tingimento natural atrela-se ao conceito de impermanência onde não há uma perda, mas uma transformação contínua, partindo da compreensão de que tudo que vem da natureza é impermanente. Cada instante, ao desaparecer, deixa marcas e também memórias que se integram em um ciclo de transformação, por isso com o passar do tempo a tonalidade das peças podem sofrer alterações ao longo do tempo, reconhecer a impermanência é compreender que cada ciclo traz em si um recomeço, a mudança sustenta o ritmo da vida.
Maria Clara S.R., designer e colunista de moda sustentável

Na sociedade contemporânea, a moda exige por uma desaceleração que restabeleça a conexão com os ciclos naturais. A popularização do tingimento orgânico nas marcas de vestuário é uma tendência crescente. Contudo, a otimização desses processos depende da integração da cadeia têxtil com o descarte da indústria de alimentos. Essa união é fundamental para garantir maior escala e eficiência às práticas de economia circular.

Leia mais em ViaVerde News