- Inovação é aplicada pela primeira vez em ambiente natural no Brasil e amplia proteção de manguezal na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro (RJ).
- A estrutura de contenção é produzida com malha de algodão e cabelo humano e absorve poluentes oleosos. A instalação foi feita por pescadores artesanais e retém também resíduos sólidos.
- Foto: Edgar Costa/Fundação Grupo Boticário
A Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, foi escolhida para receber uma ação inédita: a instalação de estruturas de contenção de óleo produzidas a partir de cabelo humano. Esta é a primeira vez que a tecnologia de reaproveitamento de cabelo humano desenvolvida pelo Fiotrar é aplicada em ambiente natural. Estudos indicam que um grama de cabelo pode absorver, em média, cinco gramas de óleo, o que torna o material uma alternativa promissora e sustentável para o enfrentamento da poluição marinha.
Na Enseada de Bom Jesus, Ilha do Fundão (RJ), os rolos feitos com malha de algodão e recheados de fios de cabelo foram acoplados a uma barreira flutuante de aproximadamente 300 metros de extensão, instalada previamente pelo projeto Orla Sem Lixo Transforma (OSLT). A estrutura flutuante, produzida com isopor, tecido e camadas de mantas geossintéticas, já atuava na retenção de resíduos sólidos. Agora, a barreira passa também a absorver poluentes oleosos, ampliando a proteção dos manguezais da região.
O projeto tem apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
“Este momento é, acima de tudo, a validação de anos de pesquisa e desenvolvimento da nossa tecnologia. Depois de um longo caminho para transformar uma ideia em uma solução aplicável, chegar a essa etapa significa provar, na prática, que é possível unir ciência, sustentabilidade e impacto social de forma concreta.”
Caroline Carvalho, diretora do Fiotrar
Para Susana Vinzon, coordenadora do projeto Orla Sem Lixo Transforma e professora da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IUFRJ), a iniciativa de instalar uma barreira conjunta consolida um longo processo de experimentação: “Este é resultado de um ciclo de testes conduzido ao longo do último ano, que buscou adaptar a tecnologia às condições ambientais específicas da Baía de Guanabara”, afirma.
Ciência e Tecnologia Social
A barreira desenvolvida pelo Orla Sem Lixo Transforma, em colaboração com pesquisadores e pescadores artesanais da região, une conhecimento científico e tecnologia social. A incorporação da solução do Fiotrar é resultado de um processo iniciado em 2025, com mediação da Fundação Grupo Boticário, que incluiu experimentações em campo ao longo do último ano. Os dois projetos foram apoiados em 2021 pelo Teia de Soluções – Camp Oceano, promovido pela Fundação para alavancar soluções favoráveis à saúde do oceano.
“Essa iniciativa mostra como diferentes soluções podem se complementar para enfrentar desafios ambientais complexos como a poluição marinha. Ao apoiar o desenvolvimento dos projetos em diferentes regiões do país e promover essa conexão, buscamos justamente potencializar os impactos positivos, aproximando ciência, inovação e comunidades locais em torno de soluções concretas”
Liziane Alberti, especialista em conservação da biodiversidade na Fundação Grupo Boticário.
O Papel Estratégico dos Manguezais
A conservação dos manguezais é vital para a resiliência da Baía de Guanabara. Considerados uma das principais Soluções Baseadas na Natureza (SBN), eles funcionam como uma infraestrutura viva: apenas 100 metros de manguezal preservado são capazes de reduzir a força das ondas em até 60%. Ao evitar que o óleo e os resíduos sólidos asfixiem as raízes e o solo, as novas barreiras garantem que o ecossistema continue exercendo seu papel essencial de proteção costeira e sequestro de carbono.




